segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Indústria têxtil sofre com a importação desenfreada

O setor de vestuário é um dos mais atingidos pela entrada de produtos chineses
A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) inaugurou na última terça-feira (17) o IMPORTÔMETRO. Um painel que mede as importações brasileiras de produtos têxteis, e apresenta como resultado o número de empregos que deixaram de ser ofertados pelas empresas do setor. Os resultados são alarmantes. De acordo com o painel, somente em janeiro deste ano, esse número já ultrapassa 39 mil postos de trabalho.  Segundo o presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Edson Campagnolo, o cenário ainda pode piorar se o Governo Federal não adotar medidas eficazes para o setor. ?A única saída para conter a desindustrialização total do setor é a redução da carga tributária ou mesmo a desoneração integral?, ressalta.
Segundo dados do Ministério do Trabalho, referentes ao ano de 2010, o Paraná é o sexto estado em geração de empregos no setor têxtil, com 98 mil postos de trabalho. Atrás de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Ceará. O setor é o segundo que mais emprega no Estado, perdendo apenas para a indústria de alimentos.
Além da facilidade da entrada de produtos importados no Brasil, devido à deficiência da fiscalização, a desvalorização do dólar, segundo Campagnolo, contribui para o aumento da importação, e as medidas adotadas pelo governo apenas minimizam o problema. ?Algumas medidas adotadas recentemente diminuem o problema, mas não resolvem. O governo tinha que desonerar por completo o setor têxtil?, reforça.
Para o presidente da Fiep, a indústria têxtil brasileira é atraente, principalmente pelo design e pela qualidade dos produtos, mas é pouco competitiva pelo custo da operação. ?Nós não queremos criar barreiras para entrada legal dos produtos importados, como está fazendo a Argentina, por exemplo. Esse não é o caminho. O caminho é dar uma condição melhor de competição ao produto brasileiro?.
Brasil importou 4,6 bilhões de dólares em 2011
De acordo com dados levantados pelo departamento econômico da Fiep, o Brasil importou, em 2011, US$4,6 bilhões em produtos têxteis. Isso significa um aumento 21% em relação a 2010, No Paraná, os números são ainda mais alarmantes. O Estado importou em 2011, US$ 181 milhões. Um crescimento de 86% em relação aos US$ 97 milhões do ano anterior. Os países que mais vendem produtos têxteis para o Brasil são China, Índia, Indonésia e Bangladesh.
Campanha ? Além da inauguração do importômetro, a ABIT lançou também uma campanha para colher um milhão de assinaturas e, com isso, pressionar o congresso a adotar medidas mais eficazes para aumentar a competitividade da indústria têxtil brasileira. A Fiep apoia a campanha. O formulário para assinatura, bem como o painel atualizado em tempo real, estão disponíveis no site da ABIT http://www.abit.org.br/.

Setor têxtil tem a maior queda de faturamento em 2011

Do Jornal A Tarde

O setor "outros transportes", que incluí de vagões a helicópteros, passando por elevadores, foi o que apresentou o melhor desempenho da indústria no ano passado, segundo divulgou hoje a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Como era de se esperar, o setor têxtil, um dos principais alvos da concorrência com produtos importados, foi o que apresentou o pior resultado em 2011.

Dos 19 setores avaliados pela CNI, 15 registraram alta no faturamento real no ano passado. Alguns, com crescimento de dois dígitos, como "outros transportes", que registrou um avanço de 28,4% no ano passado na comparação com 2010. O setor foi seguido por material eletrônico e de comunicação (20,6%), couros e calçados (17,5%), produtos de metal (13,2%) e máquinas e equipamentos (7%). Na outra ponta, o setor têxtil registrou encolhimento de 9,2% no faturamento do ano passado sobre o de 2010. Na sequência vieram: madeira (-1,9%), refino e álcool (-0,9%) e alimentos e bebidas (-0,4%).

De acordo com o gerente-executivo de políticas econômicas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flavio Castelo Branco, o ciclo de produção de "outros transportes" é longo. "Além disso, são itens produzidos, muitas vezes, sob encomenda", ressaltou.

O crescimento do total de horas trabalhadas nesse setor também foi o maior do ano passado, conforme o levantamento da CNI: houve uma expansão de 9,9% em 2011 na comparação com o ano anterior. Em seguida vieram Borracha e plástico (7,3%), minerais não-metálicos (4,9%), metalurgia básica (4,2%) e veículos automotores (3,5%). "São segmentos mais direcionados à demanda doméstica e que não possuem tanta concorrência com os importados", avaliou Castelo Branco.

Entre os setores que apresentaram maior queda no total de horas trabalhadas no ano passado ante 2010 estão madeira (-6%), vestuário (-3,2%), máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-2,9%), produtos químicos (-2,4%) e couros e calçados (-2,2%). "Aqui, a concorrência com os produtos importados é muito forte", comentou o gerente-executivo.

A Copa (não) é nossa

Do site Sul 21

Por Frei Betto

Para bem funcionar, um país precisa de regras. Se carece de leis e de quem zele por elas, o que acaba valendo é a anarquia. O Brasil possui mais leis que população. Em princípio, nenhuma delas pode contrariar a lei maior – a Constituição. Só em princípio. Na prática, e na Copa, a teoria é outra.
Diante do megaevento da bola, tudo se enrola. A legislação corre o risco de ser escanteada e, se acontecer, empresas associadas à FIFA ficarão isentas de pagar impostos.
A lei da responsabilidade fiscal, que limita o endividamento, será flexibilizada para facilitar as obras destinadas à Copa e às Olimpíadas. Como enfatiza o professor Carlos Vainer, especialista em planejamento urbano, um município poderá se endividar para construir um estádio. Não para efetuar obras de saneamento…
A FIFA é um cassino. Num cassino, muitos jogam, poucos ganham. Quem jamais perde é o dono do cassino. Assim funciona a FIFA, que se interessa mais por lucro que por esporte. Por isso desembarcou no Brasil com a sua tropa de choque para obrigar o governo a esquecer leis e costumes.
A FIFA quer proibir, durante a Copa, a comercialização de qualquer produto num raio de 2 km em torno dos estádios. Excetos mercadorias vendidas pelas empresas associadas a ela. Fica entendido: comércio local, portas fechadas. Camelôs e ambulantes, polícia neles!
Abram alas à FIFA! Cerca de 170 mil pessoas serão removidas de suas moradias para que se construam os estádios. E quem garante que serão devidamente indenizadas?
A FIFA quer o povão longe da Copa. Ele que se contente em acompanhá-la pela TV. Entrar nos estádios será privilégio da elite, dos estrangeiros e dos que tiverem cacife para comprar ingressos em mãos de cambistas. Aliás, boa parte dos ingressos será vendida antecipadamente na Europa.
A FIFA quer impedir o direito à meia-entrada. Estudantes e idosos, fora! E nada de entrar nos estádios com as empadas da vovó ou a merenda dietética recomendada por seu médico. Até água será proibido.
Todos serão revistados na entrada. Só uma empresa de fast food poderá vender seus produtos nos estádios. E a proibição de bebidas alcoólicas nos estádios, que vigora hoje no Brasil, será quebrada em prol da marca de uma cerveja made in usa.
Comenta o prestigioso jornal Le Monde Diplomatique: “A recepção de um megaevento esportivo como esse autoriza também megaviolação de direitos, megaendividamento público e megairregularidades.”
A FIFA quer, simplesmente, suspender, durante a Copa, a vigência do Estatuto do Torcedor, do Estatuto do Idoso e do Código de Defesa do Consumidor. Todas essas propostas ilegais estão contidas no Projeto de lei 2.330/2011, que se encontra no Congresso. Caso não seja aprovado, o Planalto poderá efetivá-las via medidas provisórias.
Se você fizer uma camiseta com os dizeres “Copa 2014”, cuidado. A FIFA já solicitou ao Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) o registro de mais de mil itens, entre os quais o numeral “2014”.
(Não) durmam com um barulho deste: a FIFA quer instituir tribunais de exceção durante a Copa. Sanções relacionadas à venda de produtos, uso de ingressos e publicidade. No projeto de lei acima citado, o artigo 37 permite criar juizados especiais, varas, turmas e câmaras especializadas para causas vinculadas aos eventos. Uma Justiça paralela!
Na África do Sul, foram criados 56 Tribunais Especiais da Copa. O furto de uma máquina fotográfica mereceu 15 anos de prisão! E mais: se houver danos ou prejuízo à Fifa, a culpa e o ônus são da União. Ou seja, o Estado brasileiro passa a ser o fiador da FIFA em seus negócios particulares.
É hora de as torcidas organizadas e os movimentos sociais porem a bola no chão e chutar em gol. Pressionar o Congresso e impedir a aprovação da lei que deixa a legislação brasileira no banco de reservas. Caso contrário, o torcedor brasileiro vai ter que se resignar a torcer pela TV.

Em feriados, risco de fraude no comércio aumenta. Veja dicas para se proteger

SÃO PAULO – Feriados são muito utilizados por criminosos para suas investidas, já que o comércio normalmente fica mais aquecido. E nesta quarta-feira (25), em que se comemora o aniversário da Cidade de São Paulo, é preciso estar atento a essa questão.
De acordo com o gerente de solução antifraudes da Serasa Experian, Celso Rodrigues, em épocas muito movimentadas no varejo, o principal risco do consumidor é ter seus documentos ou dados pessoais utilizados por fraudadores. No comércio, a tentativa de fraude mais comum é uma pessoa se passar por outra.
Para o comerciante, cair nesse golpe significa que ele não vai receber o pagamento, aumentando assim a inadimplência em seu estabelecimento. O ideal, portanto, é identificar se o documento que está sendo utilizado na compra é de fato da pessoa que esta comprando.
Caso consiga identificar que os dados informados são inconsistentes, as chances de evitar prejuízo são maiores. Vale lembrar que a Serasa Experian possui o serviço de Alerta de Identidade. Na hora de uma transação, o empresário pode fazer uma consulta ao serviço e analisar o histórico daquele documento.
Desta forma ele ajuda o comércio a reduzir a inadimplência causada por fraudes e protege a identidade do proprietário dos documentos apresentados.
Dicas para evitar golpes:
Peça sempre dois documentos originais;Verifique se as informações fornecidas pelos clientes são verdadeiras;Confirme a relação de endereço e telefone;Confira atentamente o comprovante de residência, confrontando com o documento de identificação apresentado.É importante, também, se não se sentir seguro mesmo com as verificações acima, pedir que uma parte ou todo o pagamento seja feito à vista.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

QUEM OLHA DE FORA OLHA MELHOR

Por Gustavo Bezerra

Após o jogo do Ypiranga conversei com um amigo da imprensa de Araripina que veio fazer a cobertura do jogo. Ele falou um pouco sobre o jogo e durante essa conversa me informou que a Prefeitura da cidade destina para o time do Araripina R$ 70 mil por mês. Pasme vocês, isso mesmo, R$ 70 mil. Acharam muito? Pois eles não acham e cobram mais. A imprensa esportiva de Araripina entende que pela divulgação do nome da cidade deveria ser mais.
Há um bom tempo morando no sertão do Araripe o amigo sentenciou: “A gente só sabe o potencial e o valor que Santa Cruz tem quando a gente vai morar fora".
Se levarmos em conta que o Campeonato Pernambucano, entre a montagem de um time e a competição em si, leva algo em torno de cinco meses, a Prefeitura de Araripina desembolsa R$ 350 mil para o time do Araripina.
É bom saber desse valor, é bom saber que a imprensa de Araripina acha pouco, deveria ser mais. Seria bom saber quanto a nossa prefeitura dar ao Ypiranga, seria bom comparar as duas ajudas, seria bom medir as duas economias – Araripina/Santa Cruz – e por fim, com essas comparações perceber se estamos acomodados, anestesiados, se os nossos políticos merecem placas em homenagem à ajuda ao Ypiranga.
O santacruzense ausente nos deixou um recado inteligente: “A gente só sabe o potencial e o valor que Santa Cruz tem quando a gente vai morar fora".

Bancos não compensarão cheques com data de 2011

SÃO PAULO – A partir de fevereiro, os bancos passarão a devolver os cheques datados com 2011.
Segundo informações da Febraban (Federação Brasileiro de Bancos), os cheques datados erroneamente serão devolvidos por preenchimento inadequado.
Durante o mês de janeiro, os bancos adotaram procedimentos de verificação para checar se a folha preenchida com 2011 não foi emitida além do prazo permitido em norma para sua compensação.
A medida foi tomada por conta do fato de muitas pessoas errarem o preenchimento do cheque devido à mudança de ano. Comprovado o equívoco do cliente no preenchimento, a compensação do cheque ocorria normalmente.
Cuidados com chequesPassado um mês do início do ano, os consumidores devem ter atenção redobrada ao preenchimento.
Além disso, para evitar qualquer problema, emita sempre cheques nominais e cruzados e não deixe que outra pessoa preencha as folhas.
Vale lembrar também de nunca deixar espaços em branco entre os números ou palavras e escrever no verso do cheque uma declaração de sua finalidade e o endosso do emitente.
Por fim, guarde os talões em local seguro e ande apenas com algumas folhas na carteira. E de maneira alguma deixe cheques assinados em branco, soltos ou no talão.

Frente parlamentar quer incluir novos segmentos no Simples em 2012

Do Portal Unicred Empresarial

SÃO PAULO – A Frente Parlamentar Mista da Micro e Pequena Empresa definiu sua meta para 2012 e pretende atuar de forma mais incisiva na inclusão de novos segmentos no Simples Nacional. A informação é da Agência Câmara de Notícias.
Dentre os segmentos, estão escritórios de advocacia, clínicas fisioterápicas e microfabricantes de bebidas alcoólicas.
Outras medidasAlém disso, outras ações deverão ser viabilizadas ao longo deste ano, tais como a criação da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, prevista no Projeto de Lei 865/11, e a criação de critérios para a incidência da substituição tributária sobre as empresas participantes do Simples Nacional, esta última considerada a mais complexa.
Atualmente, o Código Tributário Nacional permite que os fiscos estaduais obriguem uma única empresa a recolher antecipadamente todo o ICMS da cadeia de consumo. Para o fisco, a sistemática costuma ser vantajosa, já que concentra a fiscalização somente sobre o responsável pelo recolhimento do imposto, chamado de “substituto tributário”. Contudo, o mesmo não costuma ocorrer com as MPEs (micro e pequenas empresas).
“Para essas empresas obrigadas a atuar como substituto, porém, o regime traz um impacto financeiro significativo, o que acaba anulando boa parte do benefício garantido pelo Simples Nacional, que reuniu sobre um mesmo guarda-chuva seis tributos, incluindo o ICMS”, diz o presidente da Frente Parlamentar Mista da Micro e Pequena Empresa, Pepe Vargas.
Proposta técnicaVargas explica ainda que a frente parlamentar já tem uma proposta técnica para limitar a substituição tributária sobre as MPEs e ela já foi apresentada no ano passado ao Confaz (Conselho Nacional de Política Fazendária).
Segundo ele, a medida tem como intuito criar “critérios de elegibilidade” para definir que tipos de produtos poderão entrar no regime de substituição tributária, criando uma lista enxuta, como hoje ocorre com o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), em que a figura da substituição só é usada pelo governo federal em alguns setores, como a geração de energia elétrica, combustíveis e bebidas.
“Temos [Congresso] a prerrogativa para legislar sobre isso. Mas como afeta a arrecadação dos estados, queremos encontrar uma solução negociada”, informou Vargas.

sábado, 28 de janeiro de 2012

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Quatro frases que fazem o nariz do Pinóquio crescer

Do site Adital

Por Eduardo Galeano

1 - Somos todos culpados pela ruína do planeta.
A saúde do mundo está feito um caco. ‘Somos todos responsáveis’, clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane da ambiguidade. Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao ‘sacrifício de todos’ nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras - inundação que ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio - não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito dele. Mas, as estatísticas confessam.. Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20 por cento da humanidade cometem 80 por cento das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, "faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades." Uma experiência impossível.
Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo, está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo.
2 - É verde aquilo que se pinta de verde.
Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. "Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas", esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação.
Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: "os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento econômico e a espantarem o investimento estrangeiro." O Banco Mundial, ao contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará, junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência disporá de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza. Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente. O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete. A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.
3 - Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.
Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas... As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco 92: a conferência internacional que se ocupou, no Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno.
No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes, seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.
A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil. Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político.
4 - A natureza está fora de nós.
Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: "Honrarás a natureza, da qual tu és parte." Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão. Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu.

* Escritor e jornalista uruguaio

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O presidente e o palavrão que incomoda

Da Agência Carta Maior

A fala sem rodeios do presidente Lula, durante cerimônia de assinatura dos contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranhão, vai encher a seção de cartas de jornais e revistas, além de dar o tom do moralismo seletivo dos grandes articulistas.

Gilson Caroni Filho

Se tratar da língua é tratar de um tema político, a fala sem rodeios do presidente Lula, durante cerimônia de assinatura dos contratos do programa Minha Casa, Minha Vida, no Maranhão, vai encher a seção de cartas de jornais e revistas, além de dar o tom do moralismo seletivo dos grandes articulistas. Fingirão não saber que palavras tidas como chulas são formas lingüísticas ímpares para expressar emoções que permeiam o corpo e os amplos campos das relações sociais. Não está em questão se o emprego se deu em contexto adequado, mas o que move o coro dos “indignados”.
Ao afirmar que "eu não quero saber se o João Castelo é do PSDB. Se o outro é do PFL. Eu não quero saber se é do PT. Eu quero é saber se o povo está na merda e eu quero tirar o povo da merda em que ele se encontra; esse é o dado concreto", Lula tem consciência de que os opositores dirão que desrespeitou a postura pública que deveria manter em face de majestade do cargo que ocupa. Tanto que se antecipa à crítica anunciada: “Amanhã os comentaristas dos grandes jornais vão dizer que o Lula falou um palavrão, mas eu tenho consciência que eles falam mais palavrão do que eu todo dia e tenho consciência de como vive o povo pobre desse país".
Como tem sido colonizada para ter vergonha de ser o que é, uma boa parcela da classe média urbana se apresenta como defensora intransigente da propriedade, da família e do Estado Patrimonial. Confunde governo e salvação, ignora a representação, desconhece direitos sociais e políticos, menosprezando a exploração econômica, embora seja “mobilizável” por campanhas de caridades que reforcem a sua imagem de privilegiadas. Em busca de ilusões perdidas, está disponível para aventuras que realçam a ferocidade dos seus recalques. E qualquer enunciado que apresente um padrão variante é o suficiente para açular o seu ódio de classe.
Pouco lhe importa se campeia a violência, a truculência e a miséria. Em seu ilusório casulo, o que merece relevo é o destempero verbal de um presidente que não segue os padrões dos antigos donos do poder. É de pouca importância se o governo anterior reduziu a zero os empréstimos da Caixa Econômica Federal às autarquias e estatais da área de saneamento básico. Também não lhe tira o sono se a decisão política do tucanato provocou, além da dengue, surtos de cólera, leishmaniose visceral, tifo e disenterias. Ora, doenças resultantes da falta de saneamento não lhe incomodam, pois fezes liquefeitas são desprezíveis. A merda que lhe aflige é aquela que aparece no improviso presidencial como dado concreto.
Para Lula, o descalabro no saneamento é uma tragédia, e, de fato, o é. Por sua história, o presidente faz parte de uma legião de sobreviventes. De um exército que resistiu a séculos de dificuldades imensas, naturais e humanas. Tem orgulho saudável de sua força. Da força desse povo que come mandacaru e capulho verde de algodão e ainda tem a esperança desesperada de querer viver. Isso é coragem, é grandeza. Essa é a merda que a causa engulhos na grande imprensa e nos seus leitores indignados. Mas indignados com o quê, afinal?
Indignados pela existência de erros que se repetem há tempos? Indignados pela impotência de um saber divorciado da dimensão histórica e da responsabilidade social que deveria caber aos centros de ensino que freqüentaram? Indignados pela ameaça, concreta e imediata, da morte, pela fome endêmica e, até bem pouco tempo epidêmica, dos mais miseráveis? Não. O que os ruborizados pelo emprego da palavra "merda" não suportam é a ausência do promotor da "paz social", do garantidor de uma ordem política que lhes oferecia, através do conservadorismo autoritário, uma institucionalidade que muito apreciavam ética e esteticamente. Um simulacro de república feito sob medida. O problema é que a vestimenta institucional brasileira parece calça curta, fazendo o país caminhar desajeitado, com medo do ridículo. A reforma mais urgente requer produção crescente de cidadania, a criação incessante de sujeitos portadores de direitos e deveres. Em uma sociedade fracionada, essa é a "merda" que ameaça e choca os estamentos mais reacionários: a realidade que não deveria ter emergido com modelagem tão nítida.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil