sexta-feira, 5 de junho de 2009

A VITÓRIA DE SUSAN BOYLE


Do Direto da Redação


por Leila Cordeiro


Há dois meses, quando a escocesa Susan Boyle pisou no palco do show de calouros britânico, Britain’s Got Talent, ela jamais imaginou a repercussão que causaria a sua apresentação. Quando abriu a boca pra falar provocou frouxos de riso na platéia e deixou os jurados apreensivos, mas quando abriu a boca pra cantar deixou boquiaberto o mundo todo. Afinal , ela contrariou todas as regras do “that’s entertainement” cuja aparência impecável é imprescindível, coisa que ela estava muito longe de atingir. Susan cantou e encantou multidões, tornou-se celebridade da noite para o dia praticamente sem perceber. Teve sua privacidade invadida, fotógrafos e repórteres acamparam dias e dias em frente à sua casinha humilde e afastada num suburbio qualquer da Escócia atrás da melhor foto ou de uma palavra sua sobre a “nova vida”de fama e sucesso.Susan Boyle foi mais um fenômeno usado pela mídia. E bota fenômeno nisso. O video de sua primeira apresentação teve quase 80 milhões de acessos,um dos maiores recordes do site. Artistas, cantores, músicos e até sua musa inspiradora e referência artística, a cantora de musicais Elaine Paige, deram entrevistas emocionadas sobre a performance de Susan.Sem contar o que o sucesso de Susan gerou entre anônimos do mundo todo, principalmente aqueles que sempre sentiram-se discriminados por diferenças sociais, raciais, econômicas e principalmente de aparência. A nova sensação musical fora dos padrões convencionais virou marca e logotipo dos chamados “excluídos”das oportunidades. E foram assim esses dois meses para Susan Boyle. Fotos, comentários, videos, fofocas, especulações até que na semana anterior à final do concurso Susan , uma das classificadas, explodiu. Deve ter sido muita carga, muita pressão para alguém despreparado para a fama repentina. Alguém que viveu quase isolada do mundo com seus sonhos e expectativas ingênuas de vida. Ela deu autógrafos como uma super star, tentaram mudar seu visual, fazer-lhe as sobrancelhas, domar seu cabelo rebelde, vesti-la mais modernamente, entretando, apesar de alguns banhos de loja Susan não mudou muito exteriormente, o que mudou foi seu interior sensível .Repórteres fazendo perguntas incovenientes e o elogio do seu jurado preferido a outro candidato, fizeram com que o mundo de Susan desabasse e ela perdesse o controle de si mesma. Brigou, esperneou e disse que queria desistir. Mas deu a volta por cima e apareceu na final. Perdeu o primeiro lugar. Dizem que ela caiu de produção e que o grupo de dança mereceu o título. Houve polêmica, pois seus fãs não se conformaram.Mas Susan não deu sinais de que estava decepcionada. Parece até que ela voltou a ser o que era quando surgiu da primeira vez naquele palco, pura, sincera e verdadeira, com uma voz de anjo que veio ao mundo não como um querubim bonitinho de cachos e bochechas rosadas, mas como um ser humano que não precisa de beleza, roupas da moda, artifícios, mentiras ou subterfúgios para conquistar o publico e fazer sucesso de verdade. Derrotada na competição, Susan Boyle conquistou a maior vitória da sua vida pessoal: recuperou a simplicidade e a pureza de ver o mundo.

A educação e os comics: instantâneos brasileiros

Do site Agência Carta Maior

por Olgária Mattos

As escolas públicas de São Paulo adotaram histórias em quadrinhos com conotação sexual, no ensino de crianças entre 8 e 9 anos. A escolha não foi circunstancial, pois expressa o núcleo da ideologia contemporânea, que considera que “a verdadeira cultura é inacessível à grande massa”.

A imprensa divulgou a notícia de que as escolas públicas de São Paulo, a fim de “estimular a leitura e a escrita” no aprendizado da língua portuguesa, haviam adotado, para crianças entre oito e nove anos, histórias em quadrinhos. A publicação foi considerada imprópria por conter palavrões que, como se sabe, portam conotação sexual. Considere-se, também, além do estilo do desenho, a dificuldade de leitura de seus balões, que se deve ao traçado das letras, desenho e letras plenamente adequados ao gênero.Assim, a questão não é a história em quadrinho, mas a adoção, pelas escolas, de uma expressão literária de distração “para adolescentes e adultos”, uma vez que a árdua tarefa da educação é introduzir a criança no universo do conhecimento, formando-lhe a sensibilidade e o pensamento, para que ela possa apropriar-se, progressivamente, de um repertório mais amplo e diverso daquele de que dispõe por sua inserção social e pela cultura de massa.Confundindo educação e entretenimento, cedendo à adaptação da escola ao gosto das mídias, esta escolha não foi circunstancial, pois expressa o núcleo da ideologia contemporânea, que considera que “a verdadeira cultura é inacessível à grande massa”. Adorno escrevia nos anos 1940 que a mídia determinou uma cisão entre “cultura de elite” e “ cultura popular”, protagonizando a cultura média midática, que difunde um conhecimento medíocre para a grande massa. Para ele, a indústria cultural seria, então, produzida “para os ignorantes”. Em seguida, seria levada a cabo “pelos ignorantes”, por equipes técnicas que não estabelecem nenhum contato ou contato apenas episódico com o mundo da cultura. Acrescente-se o ideário de que a dificuldade em alfabetizar, bem como em despertar interesse pelos saberes escolares, devem-se ao pressuposto de a escola não estar adaptada ao universo do “ educando”. Na verdade, talvez a crise esteja em a escola ter-se adaptado à carência do status quo , que corresponde à indigência das próprias elites educacionais.Em sua obra "A revolução da escrita e suas conseqüências culturais na Grécia Antiga" , Havelock indica a maneira pela qual o advento da educação formal e o ensino da gramática foram de grande eficácia, pois qualquer sistema de escrita que reproduzisse apenas a língua falada estaria sujeito a flutuações e variâncias que acabariam por comprometer sua função social de comunicação e clareza, e por isso exigia um alto grau de convenção. Também Adorno em suas "Minima Moralia" alertava para as dificuldades das relações humanas na sociedade industrial produtivista,uma vez que esta se encontra sob o domínio da razão instrumental, movida pelo culto da eficiência e dos resultados, por um lado, pelas razões econômicas, de outro. Na educação, trata-se, antes da pergunta sobre o que ensinar e seus métodos, de refletir sobre o “tipo de indivíduo que se procura formar com a educação.” Por visar o indivíduo compassivo com seus próximos e solidário na sociedade, a educação não se pautava pelas necessidades do mercado. Valia-se, pois, no ensino da língua, de narrativas exemplares em que a elaboração literária era essencial. Por isso,associava-se o ético ao prazer estético.A adaptação da escola ao social é comandada pelo fetiche da facilidade que comanda, por sua vez, as transformações dos programas educacionais, definindo comportamentos intelectuais. Esta mutação do caráter civilizacional da educação escolar não é acontecimento isolado de São Paulo, mas se expande por todo o sistema de ensino. Que se pense na indústria dos livros para-didáticos e sua discutível qualidade, recomendados em estabelecimentos de ensino.Desde suas origens gregas, a educação formal visava desenvolver saberes e habilidades a fim de reunir escola e vida. Diversamente daquelas aptidões que se aprendem sem necessidade de instrução, pela experiência e pelo hábito, a escola foi o lugar de adoção de uma identidade coletiva com valores e conhecimentos comuns e compartilhados. Lembre-se que “aluno”, em francês, se diz “ élève”, porque a educação eleva a criança e sublima o povo.Independentemente de sua utilização, o fato de este material ter sido cogitado para as escolas públicas indica de que maneira o Estado produz intensivamente a exclusão, educando os mais pobres para permanecerem na pobreza.. Elitista, o Estado impede o acesso dos despossuídos à cultura formal, tornando-a privilégio de uma elite. “Genocídio cultural”, na expressão de Pasolini.

Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo.

Novos desafios para o planeta

Do site Brasil de Fato

por Marcelo Barros

Em torno ao dia 05 de junho que a ONU consagra como “dia internacional do meio ambiente”, o mundo inteiro promove uma série de discussões e eventos que durarão toda a semana. De fato, os problemas ambientais se agravam. Hoje, não há quem não se assuste com a freqüência e a intensidade de inundações e secas, assim como, em algumas regiões do mundo, terremotos e furacões ganham fúria nunca vista.
Como disse Leonardo Boff na assembléia geral da ONU: “se a crise econômica é preocupante, a crise da não sustentabilidade da Terra se manifesta, cada dia mais, ameaçadora. Os cientistas que seguem o estado do Planeta, especialmente a Global Foot Print Network , haviam falado do Earth Overshoot Day, isto é, do dia em que se ultrapassarão os limites da Terra. Infelizmente, os dados revelam que, exatamente no dia 23 de setembro de 2008, a Terra ultrapassou em 30% sua capacidade de reposição dos recursos necessários para as demandas humanas. Neste momento atual, precisamos de mais de uma Terra para atender à nossa subsistência. Como garantir ainda a sustentabilidade da Terra, já que esta é a premissa para resolver as demais crises: a social, a alimentar, a energética e a climática? Agora, não temos uma “arca de Noé” que salve alguns e deixe perecer a todos os demais. Como asseverou recentemente, com muita propriedade, o Secretário Geral desta casa, Ban Ki-Moon: ´não podemos deixar que o urgente comprometa o essencial´. O urgente é resolver o caos econômico, mas o essencial é garantir a vitalidade e a integridade da Terra. É importante superar a crise financeira, mas o imprescindível e essencial é como vamos salvar a Casa Comum e a humanidade que é parte dela. Esta foi a razão pela qual a ONU adotou a resolução sobre o Dia internacional da Mãe Terra (International Mother Earth Day) a ser celebrado no dia 22 de abril de cada ano. Dado o agravamento da situação ambiental da Terra, especialmente o aquecimento global, temos de atuar juntos e rápido. Caso contrário, há o risco de que a Terra possa continuar, mas sem nós” (discurso na ONU – abril de 2009).
Infelizmente, governos e instituições internacionais continuam insistindo no modelo capitalista depredador. Somente o governo americano destinou este ano mais de US$ 4 trilhões a salvar bancos e multinacionais irresponsáveis que perderam dinheiro no cassino financeiro da imprevisibilidade. Este dinheiro do povo, dado aos ricos, “é um valor 40 vezes maior do que os recursos destinados a combater as mudanças climáticas no mundo e a pobreza” (Le Monde Diplomatique Brasil, maio de 2009, p. 3). O próprio governo brasileiro advoga que, contra a crise econômica que assola o planeta e também atinge o Brasil, a solução será consumir e comprar, porque isso gera empregos e receitas. As conseqüências ecológicas desta escolha não se colocam. Menos ainda o a questão ética fundamental. Quantos brasileiros podem viver esta febre do consumo? O PNUD do ano passado confirma: 20% das pessoas mais ricas absorvem 82% das riquezas mundiais, enquanto 20% dos mais pobres têm de se contentar apenas com 1, 6% desta riqueza que deveria ser comum. Uma ínfima minoria monopoliza o consumo e controla os processos econômicos que implicam na devastação da natureza e em uma imensa injustiça social.
Ainda nestes dias, a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória 458 que permite legalizar milhares de posse de terras públicas com até 1500 hectares (15 Km2) na Amazônia Legal. A senadora Marina Silva alerta que esta medida acabará de abrir totalmente as portas para a grilagem na Amazônia, para a destruição da floresta, além de favorecer a concentração de terras já escandalosa.
Ao contrário, em alguns países, como a Alemanha e o Canadá, investimentos públicos incentivam o uso de energia limpa, ao mesmo tempo em que contribuem para a luta contra o desemprego. Entretanto, cada vez mais os analistas e cientistas percebem que todo esforço será inútil se não se superar uma economia capitalista que consiste em acumulação de riquezas e desperdício de recursos, em prol de uma economia que preserve o planeta em vez de esgotá-lo.
Para quem vive uma busca espiritual, o cuidado amoroso com a Mãe Terra, com a água e com todo ser vivo fazem parte do testemunho que Deus é amor, está presente e atuante no universo. Apesar de todas as agressões e crimes cometidos contra o Planeta, ainda podemos salvá-lo. Em 2003, a UNESCO assumiu a “Carta da Terra”, como instrumento educativo e referência ética para o desenvolvimento sustentável. Participaram ativamente de sua concepção humanistas e pensadores do mundo inteiro. É preciso que a ONU assuma este documento que qualquer pessoa pode ler e comentar na internet (basta consultar: “carta da terra”). É o esboço de uma “declaração dos direitos da Terra” e toda a humanidade é chamada a conhecê-la e praticá-la.

Marcelo Barros é monge beneditino e autor de 26 livros, dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas". Ed. Rede-Loyola, 2003.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

ACREDITAR

Que eu continue a acreditar no outro mesmo sabendo de alguns valores tão esquisitos que permeiam o mundo;
Que eu continue otimista, mesmo sabendo que o futuro que nos espera nem sempre é tão alegre;
Que eu continue com a vontade de viver, mesmo sabendo que a vida é, em muitos momentos,uma lição difícil de ser aprendida;
Que eu permaneça com a vontade de ter grandes amigos(as), mesmo sabendo que com as voltas do mundo, eles(as) vão indo embora de nossas vidas;
Que eu realimente sempre a vontade de ajudar as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, sentir, entender ou utilizar esta ajuda;
Que eu mantenha meu equilíbrio, mesmo sabendo que os desafios são inúmeros ao longo do caminho;
Que eu exteriorize a vontade de amar, entendendo que amar não é sentimento de posse, é sentimento de doação;
Que eu sustente a luz e o brilho no olhar, mesmo sabendo que muitas coisas que vejo no mundo, escurecem meus olhos;
Que eu alimente minha garra, mesmo sabendo que a derrota e a perda são ingredientes tão fortes quanto o Sucesso e a Alegria;
Que eu atenda sempre mais a minha intuição, que sinaliza o que de mais autêntico possuo;
Que eu pratique sempre mais o sentimento de justiça, mesmo em meio à turbulência dos interesses;
Que eu não perca o meu forte abraço, e o distribua sempre;
Que eu perpetue a Beleza e o Brilho de ver, mesmo sabendo que as lágrimas também brotam dos meus olhos;
Que eu acalente a vontade de ser grande, mesmo sabendo que minha parcela de contribuição no mundo é pequena;
E, acima de tudo... Que eu lembre sempre que todos nós fazemos parte desta maravilhosa teia chamada Vida, criada por Alguém bem superior a todos nós! E que as grandes mudanças não ocorrem por grandes feitos de alguns e, sim, nas pequenas parcelas cotidianas de todos nós!

Chico Xavier

As cartilhas de São Paulo

Do JB online

por Mauro Santayana

A Secretaria de Educação de São Paulo distribuiu livros à rede estadual de ensino, destinados às crianças, que são uma ofensa aos pobres, já que os ricos não frequentam escolas públicas. Um deles, em quadrinhos, sob o argumento de que facilitaria o aprendizado da leitura, está recheado de ilustrações obscenas e textos apenas chulos, com linguagem de sarjeta. A pretexto de levar às crianças temas da atualidade – de acordo com a Folha de S.Paulo de ontem – distribuiu outra publicação, sob o título de Poesia do dia, poetas de hoje para os leitores de agora, em que se recomenda desprezar o amor e preferir o estupro, entre outros conselhos no mesmo estilo. Se os autores sabiam a que público se dirigiam, merecem a indignação do povo brasileiro, porque veem as crianças pobres como pequenos bandalhos, interessados em relatos fesceninos. Se quiseram imitar o método Paulo Freire, cometeram uma contrafacção perversa e criminosa. Ao contrário do que muitos pensam, os trabalhadores são muito ciosos da boa formação moral dos filhos, e naturalmente irão receber esses textos com indignação. É um erro entender a educação como um meio de ajustar o aluno a seu tempo, quando esse tempo é inconveniente ao homem. A educação deve ser teleológica. Os alunos têm que ser preparados não para submeter-se a uma sociedade deformada pela injustiça mas, sim, para mudá-la. A educação deve libertar o homem, e essa libertação não se encontra na banalização do sexo, no repúdio ao amor, no ódio psicopata contra a vida. As sociedades totalitárias – como a do neoliberalismo – sempre estimulam a liberdade dos costumes, a fim de distrair os povos de seus direitos reais, de sua essencial dignidade. A edição de livros escolares se tornou um negócio gigantesco, com grandes interesses comerciais em jogo. As editoras pressionam as autoridades em busca da adoção de seus livros na rede oficial, usando dos meios de convencimento conhecidos. Suspeita-se também que haja um sistema de trocas, em que o aprovador de hoje pode vir a ser o editado de amanhã. Ao escândalo (porque se trata de um escândalo) atual, o governo de São Paulo só pode responder com a instituição de um inquérito rigoroso, antes que a Assembleia Legislativa tome a iniciativa da investigação.

“O PIB precisa ser colocado no seu papel de coadjuvante”

Do Jornal O Rebate

“Não podemos continuar a viver neste planeta com um consumo irresponsável por uma minoria da população, que consegue destruir as reservas e os recursos naturais que estão no planeta como se fossemos a última geração do mundo. Não dá para achar que este sistema é bom e deve voltar a funcionar porque vai aumentar o Produto Interno Bruto (PIB)”. A opinião é do professor Ladislaw Dowbor, do Programa de Pós Graduação em Administração da PUC-SP em entrevista a revista Desafios do IPEA, do mês de maio 2009.O professor critica severamente a metodologia do PIB. Segundo ele, “na metodologia atual, a poluição aparece como sendo boa para a economia, enquanto que o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) surge como o vilão que impede o Brasil de atingir o desenvolvimento pleno”.

Eis a entrevista.

A crise financeira internacional pode afetar a crença nas leis de mercado e no próprio sistema capitalista na mesma proporção em que a queda do muro de Berlim determinou os destinos do comunismo?
Há tantas refutações de que o mercado não funciona que é duvidoso. Ele simplesmente é necessário. Eu trabalhei na Polônia no âmbito da economia socialista. Havia mecanismos de mercado amplamente utilizados. Não estou falando do mercado no processo de concorrência entre uma série de produtores e pessoas que trocam valores com outros, permitindo a divisão de trabalho na sociedade. Isso é valioso e deve ser guardado. O que se confundiu foi o mecanismo de mercado com a regulação geral da sociedade.
Como assim?
O mecanismo de mercado protege para as trocas. Não protege o que produzimos, para quem e sobre quais custos tanto para a natureza quanto para a sociedade. Portanto, o que está acontecendo é que o mercado está perdendo sua capacidade reguladora na sociedade. O sistema de bancos no Brasil é essencialmente carteirizado. Na Inglaterra, o crédito pessoal no HSBC é de 6%, enquanto aqui passa de 60%. Se houvesse mecanismos de mercado, as pessoas iriam buscar capital lá ou aplicariam aqui. Ou seja, nas áreas carteirizadas, que pertencem às grandes corporações, deixou de funcionar o mercado.
O que fazer então?
É preciso ter sistemas de regulação equilibrados entre os intermediários financeiros, bancos centrais, governos e as organizações de usuários. O mercado não resolve tudo sozinho. Veja, por exemplo, o caso de grupos como as Casas Bahia, que trabalham frequentemente com taxas de juros de 100%. Uma pessoa de baixa renda paga o dobro do valor de um produto. Isso é extorsivo e se baseia na manutenção da desigualdade de renda, que força as pessoas sem dinheiro vivo a pagar em pequenas prestações o dobro do que pagaria uma pessoa com mais recursos. Existe um mecanismo financeiro de concentração de renda. São áreas comerciais que passaram, ainda que de forma não declarada, a ter uma atuação financeira. Assim, o acesso aos recursos e a distribuição equilibrada na sociedade está cada vez menos regulada com mecanismos de mercado. Além disso, o mercado é nocivo na exploração de bens naturais.
Como?
Basta observar o caso da pesca oceânica. Com o GPS e as novas tecnologias, se torna possível extrair o volume de peixes desejado. Virou um matadouro. E quanto mais avança a tecnologia, mais barato é capturar o peixe. No entanto, à medida que os peixes vão se esgotando, os preços sobem. O problema da água também está se tornando crítico para a humanidade. Com sistemas modernos se tornou viável bombear enormes quantidades de lençóis freáticos subterrâneos que se acumulam durante séculos. O processo funciona com extrema rapidez. Isso gera grandes fortunas para determinados grupos, que não arcaram com custos da sua produção. Por outro lado, liquida, a base de água e não gera emprego. Esse eixo é simplesmente destrutivo para as áreas de recursos limitados. Então, o mercado não tem capacidade para regular áreas que envolvem recursos naturais. Com a crise financeira internacional, há muitos especuladores à procura desesperada de onde aplicar seus recursos. Eles querem comprar imensas áreas de solo no Brasil de olho na pressão alimentar e na oportunidade de lucros com os bicombustíveis.LEIA MAIS

Brasil é o terceiro em casos de abuso sexual infanto-juvenil




Do site Rede Andi




De acordo com o presidente da CPI da Pedofilia, senador Magno Malta, enquanto o mercado do narcotráfico movimenta pelo mundo cerca de R$ 52 bilhões, esse tipo de crime gira em torno de R$ 105 bilhões
O Brasil é líder no ranking de países com maior incidência de crimes de pornografia pela internet, e o terceiro colocado dentre os países com índice de abusos sexuais de crianças e adolescentes. Estudos constatam que, de cada 10 casos de abuso sexual contra meninos e meninas, seis são cometidos por um membro da própria família da vítima. De acordo com Magno Malta, que preside a CPI contra a Pedofilia no Senado, um dado preocupante é a grande movimentação de dinheiro nas várias formas de atuação. "Enquanto o mercado do narcotráfico movimenta pelo mundo cerca de R$ 52 bilhões, os crimes de abuso sexual giram em torno de R$ 105 bilhões", afirma. Em recente viagem aos Estados Unidos, o senador se reuniu com a direção da Microsoft e da Google, e ambas reafirmaram o compromisso em criar ferramentas de combate a crimes ligados à abuso e exploração sexual infanto-juvenil na rede. "Diversas frentes de trabalho estão abertas e em andamento, como a investigação das denúncias de redes de aliciadores nos estados e a elaboração de novas leis para reprimir a ação dos criminosos, além da análise do material colhido nos sites suspeitos de conteúdo ilegal", garantiu.

O país na encruzilhada

Do Blog do Desempregozero

Presidente do Ipea afirma que o aprofundamento da crise econômica vai precipitar escolhas mais claras (atender ricos ou atender pobres?) para a política econômica do governo.
O núcleo de economistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) causa urticária nos defensores das políticas monetária e fiscal restritivas, que encontram seu domínio no comando do Banco Central. Sob a presidência do professor da Unicamp Marcio Pochmann, o Ipea é um dos centros de formulação intelectual para os setores alinhados com as teses desenvolvimentistas no interior do governo Lula. Em um de seus estudos mais conhecidos, Pochmann afirma sem titubear: “Não mais do que 20 mil clãs de famílias concentram a posse dos títulos públicos. Por isso, a despesa pública com pagamento de juros representa um dos mais perversos gastos do Estado.” A contundente crítica à política monetária de Henrique Meirelles, presidente do BC, atraiu admiradores e desafetos. À VERSUS, Pochmann definiu a sua presença no Ipea. “A nossa passagem não é para organizar o consenso. Nosso papel, aqui, como funcionários públicos que recebem salários pagos pela maior parte dos pobres do país, pois são esses que pagam impostos, é organizar o dissenso.” Veja os principais trechos da entrevista a seguir.
Nós estamos defendendo de que não há razão técnica que justifique uma taxa de juros nominal superior a 7% ao ano. A maior parte dos países em frente à crise está operando com taxas de juros real negativo e nós estamos com taxa de juros 7% real. Achamos que há um espaço para a redução drástica da taxa de juros, não há problemas inflacionários de um lado, de outro lado a taxa de juros tal como ela se encontra implica custos, gastos públicos para financiá-la que poderiam perfeitamente estar atendendo a outros compromissos, como a defesa da produção e do emprego.
Nós estamos vivendo em um outro contexto em que são justamente as empresas que possuem os estados nacionais na medida em que hoje o mundo é praticamente coordenado por decisões de 500 grandes corporações transnacionais cujo faturamento anual equivale a quase 48% do PIB do conjunto dos países.
As três maiores corporações do mundo têm um faturamento que equivale ao PIB do Brasil, que é a 9ª economia do mundo. As 50 maiores corporações têm um faturamento que é maior do que o PIB de 100 países. Então há uma coordenação feita pelo setor privado, por essas grandes corporações sem regulação, sem controle e transparência democrática que está questionado pela crise. Leia o resto do artigo»

quinta-feira, 28 de maio de 2009

DESMONTANDO A MATRIX

Do site NovaE

por Christina Carvalho Pinto

Estamos vivendo, possivelmente, a era mais paradoxal da história da humanidade: enquanto avançam de um lado a velocidade tecnológica e o acesso à informação, amplia-se de outro a cantilena que mais se ouve ultimamente: "isso ou aquilo não está funcionando". Empresas que se apresentavam como verdadeiros baluartes da solidez capitalista implodem perante nossos olhos num efeito de hipnotizante dominó. Crenças, conceitos, ideologias, relacionamentos, instituições, métodos, ferramentas, CEOs, CFOs, COOs e Chairmen of Boards são, de repente, trocados e descartados como copinhos de plástico sob a alegação de que não funcionam. Na ânsia psicótica de acertar a qualquer preço, indivíduos, corporações e sistemas inteiros afundam como bambis capturados em areias movediças.
No cenário das comunicações, a roda é reinventada a cada esquina, sob novos nomes e vocabulário fashion. A pressão por resultados utópicos no curtíssimo prazo acaba estimulando cérebros brilhantes a deixar a reflexão de lado e partir para o jogo medíocre do me-engana-que-eu-gosto.
Como conseqüência, rareiam os resultados legítimos e precipitam-se diagnósticos que levam ao que muitas vezes se critica na medicina alopática: apego aos sintomas e distanciamento da única coisa que pode levar à cura, ou seja, a consciência sobre as causas, a clara visão do todo.
Basta recuperar por um instante a lucidez para perceber que o mundo dos negócios desembestou na direção oposta ao caminho dos indivíduos e dos anseios que há mais de duas décadas vêm emergindo nas diferentes sociedades, que processam neste momento uma mudança de consciência e descobrem novas fontes interiores de autoridade e poder.
Grande parte das empresas parece ignorar isso, como se os chamados mercados fossem algo além de gente, apenas gente. Essa visão de um mundo regido exclusivamente por economias e mercados não pode funcionar porque o ser humano do século XXI rejeita ser reduzido a algo tão desinteressante.
Na verdade, já não é o marketing, a comunicação, o CEO ou o marido que não funcionam: é Matrix que está sendo desmascarada num processo irreversível.
O ser humano não agüenta mais a superficialidade, a indiferença, a frieza, a hipocrisia e sobretudo a voracidade de grande parte das corporações e, por reflexo, de suas marcas. Em nome da competitividade cometem-se abusos que asfixiam as raízes e os sonhos de nações inteiras. Nunca se viu tanto presidente de empresa fazendo planos profissionais e pessoais para curto prazo, loucos para chutar o balde (antes que o balde os chute).
A realidade é que, em grande parte dos ambientes executivos, os bolsos recheados de bônus tentam inutilmente compensar corações esvaziados de sonhos. São inúmeros os filhos de big bosses que viram seus pais e mães desembocarem no estresse patológico, alcoolismo, raiva, frustração, desencanto pela vida. Assustados e sozinhos, esses jovens rejeitam as trajetórias de seus progenitores e, neste exato instante, buscam novas saídas, caminhos que eles ainda não conhecem, mas que deverão nortear suas existências para um ponto com o qual jamais tiveram contato em seus lares: o ponto do equilíbrio.
Em meio a esse cenário de pré-mutação planetária e inexorável, talvez o mais eficaz seja começarmos pelo começo. Precisamos tratar a alma das corporações. Trocar o culto carnavalesco à informação pela busca profunda de conhecimento. Semear a ética, os valores mais nobres, a compaixão, o espírito de co-criação, a auto-estima, a esperança, o respeito, a dignidade. Permitir que esse novo e crucial oxigênio purifique e expanda os pulmões das pessoas físicas e jurídicas. E fazer com que o marketing e suas ferramentas, inclusive as diferentes disciplinas da comunicação, expressem algo que valha a pena.
Para chegar lá, o desafio é desmontar Matrix e resgatar a essência de tudo. Ao fazê-lo descobriremos, para alívio geral, que as empresas, as marcas, as disciplinas da comunicação, os CEOs, os CFOs, os COOs e até mesmo os Chairmen of Boards voltarão a funcionar.
Christina Carvalho Pinto é sócia-presidente do Grupo Full Jazz de Comunicação.

Prostitutas brasileiras na Espanha

Do site Agência Carta Maior

por Emir Sader

A história é a seguinte: um casal, Domingo Fernandez e Gilda Borges, dirigiam duas casas de prostituição em Vigo, chamadas Mamba Negra e Skorpio, assim como participavam da gestão do Sheraton, na cidade de Verin, dirigida por Manue Atanes. Levavam moças do Brasil para trabalhar como prostitutas nesses locais, sem esconder as atividades que elas iam ter. Pagavam suas passagens e agiam para que elas chegassem como turistas. Chegadas à Espanha, se impunham as normas de funcionamento dos locais, que incluíam horários e os preços da bebida e dos serviços sexuais oferecidos aos clientes. Estes pagavam aos garçons e no fim de cada noite elas recebiam sua parte, se é que tivessem direito. Porque durante os primeiros meses tinham descontado o preço da passagem, o que fazia com que elas não recebessem nada, além das multas que poderiam receber, por chegar tarde ao trabalho, por falar alto (sic), por dar o numero de telefone a clientes e por sair sem autorização. Além disso, elas tinham obrigação de morar nos locais de trabalho e pagar pelo aluguel e pela comida.O casal foi condenado pela Audiência Provincial de Pontevedra a seis anos de prisão por trafico ilegal de pessoas com fins de exploração e a dois anos e meio por um delito contra os direitos dos trabalhadores. O Supremo Tribunal Federal da Espanha ratificou a primeira condenação, mas absolveu o casal do segundo delito, alegando que as condições de trabalho, as multas por atrasos e falar alto “são normalmente penalizadas pela lei no mundo dos hotéis e que as outras condições “são normais”.O Tribunal decidiu que “à margem de razões de moralidade”, a prostituição por conta alheia pode ser “uma atividade econômica que, se é realizada em condições aceitáveis pelo Estatuto dos Trabalhadores, não pode ser enquadrada no delito 312 do Código Penal, que castiga aos que oferecem condições de trabalho enganosas ou falsas ou empregam a cidadãos estrangeiros em condições que prejudiquem, suprimam ou restrinjam os direitos que fossem reconhecidos por disposições legais, convênios coletivos ou contrato individual.”O Supremo Tribunal Federal da Espanha considera assim que pode haver uma relação, mesmo que atípica, no exercício da prostituição por conta alheia? O Código Penal espanhol tipifica como delito o proxenetismo, mesma se a mulher o consente. Mas os juízes fazem uma declaração de principio afirmando que “a questão da prostituição voluntaria em condições que não suponham coação, engano, violência ou submissão, ainda que por conta própria ou dependendo de um terceiro que estabelece umas condições que não atentem contra os direitos dos trabalhadores, não pode ser decididas com enfoques morais ou com concepções ético-sociológicas, dado que afetam a aspectos da vontade (das mulheres) que não podem ser coibidas pelo direito sem maiores matizes.”Diante dessa situação, pergunta-se o jornal espanhol El Pais:“É possível explorar sexualmente a uma mulher e ao mesmo tempo dar-lhe condições de trabalho `normais´? Se pode falar de relação de trabalho nestes casos?” Responde que as leis sobre tráfico de mulheres e prostituição não tem uma resposta clara, fazendo com as sentenças dos juízes sejam às vezes tão confusas como a própria legislação.Chega-se a uma situação tal de mercantilização do corpo das mulheres, como se fosse normal, que a discussão se transfere para a legislação laboral, aceitando-se implicitamente que a venda ou o aluguel do corpo feminino é uma atividade comercial como uma outra qualquer.(Há poucos anos Fernando Gabeira aventou até a possibilidade de apresentar uma proposta de lei que legalizaria a prostituição infantil.)Que sociedade é esse que discute com frieza e “normalidade” a redução do ato sexual a uma mercadoria? A defesa dos direitos das prostitutas torna-se uma reivindicação normal, dado que a prostituição passou a ser um elemento compensatório da frustração tanto dos casamentos, quanto das outras formas de relação amorosa.Na era da globalização, enquanto os espanhóis nos mandam seus bancos, empresas de telefonia celular, de exploração de petróleo e gás, importam nossos jovens jogadores de futebol e moças brasileiras para atender as demandas e as carências da afluente sociedade capitalista espanhola. Não há nenhuma indicação sobre quem são as brasileiras, quantas são e o que aconteceu com elas depois do processo.