quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Brasil, Argentina & China

Do Via Política
Por Milton Lourenço
Em 2008, a Argentina foi o segundo maior parceiro do Brasil, logo depois dos Estados Unidos, com uma corrente de comércio que acumulou a cifra recorde de quase US$ 31 bilhões, valor que representou uma expansão de quase 25% de 2007 para 2008. Mas, em pouco mais de seis meses, tudo isso está indo por água abaixo, com as exportações brasileiras para a Argentina perdendo, de maneira acelerada, espaço para os produtos chineses.
Só no primeiro trimestre deste ano a retração foi de 39%, enquanto a China não pára de ampliar sua participação, em detrimento das vendas brasileiras, especialmente nos setores de papel, calçados, produtos farmacêuticos, instrumentos fotográficos, óticos, médicos e musicais, brinquedos e acessórios de vestuário. No caso de têxteis e vestuário, por exemplo, o Brasil vendia 40% a mais do que a China no primeiro trimestre de 2008, relação que se reverteu neste ano, com o país asiático vendendo cerca de 20% a mais que o Brasil, segundo dados da empresa de consultoria argentina abeceb.com.
O avanço chinês também é realidade no mercado brasileiro. Em abril deste ano, a China ultrapassou os EUA e já é o principal parceiro comercial brasileiro – 12,9% das exportações do Brasil são para a China. O nó górdio da questão é que as nossas vendas concentram-se em matérias-primas, pois os produtos manufaturados representam 8% de tudo o que o país exporta para a China, ao passo que as importações que fazemos daquele país são, praticamente, de produtos manufaturados. Nesse ritmo, o Brasil corre o risco de voltar a ser um país fornecedor de matérias-primas, como no século XIX.
Apesar disso, até agora, não se ouviu uma voz dentro do governo brasileiro sobre a perda de um tradicional mercado como a Argentina. Um silêncio que só prova duas coisas: 1 – que o governo brasileiro tem sido de muito discurso, mas pouca ação; e 2 – que os produtos industrializados brasileiros não são competitivos, pois, gravados por tributos escorchantes e pela falta de infraestrutura, chegam mais caros ao mercado vizinho que os chineses, que são produzidos a milhares de quilômetros de distância.
Culpa dos chineses? É claro que não porque, na era da globalização, a competição é a norma. Portanto, o que o Brasil deveria fazer era trabalhar para melhorar a competitividade de seus produtos, em vez de colocar a culpa nos produtos estrangeiros. Como o governo não se dispõe a buscar alternativas que passem pela desoneração de tributos, não se tem boas perspectivas para o desempenho brasileiro no mercado argentino.
Por isso, a idéia que fica é que as negociações entre Brasil e Argentina pouco têm servido, exceto para a troca de acusações mútuas de protecionismo. Veja-se, por exemplo, o setor têxtil brasileiro, que tem 131 itens sujeitos a licenças não automáticas pela Argentina, forma pela qual as autoridades locais administram o que entra no país. É certo que essas licenças são válidas para todas as nações, inclusive para a China, que também enfrenta entraves como preços mínimos e processos antidumping, mas, no caso específico do Brasil, atingem 14% das nossas vendas e costumam superar o prazo de 60 dias, tempo-limite estabelecido pelas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Também a indústria brasileira de brinquedos acusa o governo argentino de utilizar barreiras informais para restringir a entrada de seus produtos, apesar do Mercosul. Para esse setor, nada representam as políticas de atração de investimentos e apoio dos dois governos ao investimento estrangeiro direto e às exportações, como as linhas de financiamento pré e pós-embarque do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Igualmente o setor de calçados pouco se tem beneficiado dessas ações. Afinal, viu a sua fatia no mercado argentino cair de 71% em 2005 para 45% neste ano. Em 2009, as importações argentinas de calçados da Ásia já chegaram a 2,6 milhões de pares, ao passo que o Brasil vendeu 2,2 milhões para aquele mercado.
É verdade que, em 2004, quando o Mercosul já carregava 13 anos de existência, o valor das transações entre Brasil e Argentina foi pouco superior a US$ 11 bilhões. E que, em menos de cinco anos, Brasil e Argentina triplicaram sua corrente de comércio, com boa qualidade e diversidade na pauta exportadora de cada um dos países. Sem contar que, em 2008, cerca de 90% do valor total das exportações brasileiras para a Argentina foram de produtos industrializados, do mesmo modo que quase 85% do valor total das exportações argentinas para o Brasil foram de produtos industrializados, segundo dados do MDIC.
Tudo isso, porém, pode virar pó, se não houver entre os dois governos mais espírito de integração que resulte em estratégias comuns para enfrentar a concorrência chinesa.

Nordeste cresceu quando o País parou


Do Estado de S Paulo


Puxada por Pernambuco, Ceará e Bahia, região viu seu PIB se expandir 2,2% no primeiro semestre; Brasil encolheu 1,46% no período.


O Nordeste saiu vitorioso da crise econômica e cresceu 2,2% no primeiro semestre. A estimativa surpreende em um Brasil que encolheu 1,46% no período. O Produto Interno Bruto (PIB) de Pernambuco registrou alta de 3,8%; o de Ceará, 2,8%; e o da Bahia, 1,6%. Juntos eles respondem por dois terços da riqueza local. Segundo a Datamétrica Consultoria, que radiografou o bom momento da região a pedido do Estado, só em uma hipótese teria havido um crescimento nulo: se os outros seis Estados, que não calculam previsões de PIBs, tivessem sofrido uma retração três vezes maior que a da brasileira. Mas outros indicadores de suas economias apontam na direção oposta.


A Datamétrica, consultoria de Pernambuco especializada na economia nordestina, analisou os PIBs e variáveis de impostos estaduais e federais, comércio, produção industrial e movimentação bancária. Naquelas em que o Brasil cresceu, o Nordeste avançou mais. Nas outras em que houve retração, os nordestinos tiveram quedas menores. E são esses mesmos indicadores que mostram que Sergipe, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão não fizeram feio. A arrecadação do ICMS desse grupo subiu 7,3% nos últimos sete meses, enquanto no Nordeste houve um acréscimo de 3,87% e no Brasil, de apenas 1,66%. No mesmo período, o comércio deles avançou 5,4%, do Nordeste, 5,6%, e em todo o País, 4,6%.


“De certa maneira, o Nordeste bancou a política anticrise de outras regiões brasileiras, já que a maioria das empresas dos setores em que houve redução do IPI fica no Sudeste e Sul”, analisa o presidente da Datamétrica, Alexandre Rands Barros. O Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) reduzido provocou queda nacional de receitas. Já o aumento da produção beneficiou mais os Estados produtores das cadeias automobilística e linha branca (eletrodomésticos).


Três fatores foram vitais para fazer com que a região crescesse mais que o Brasil na crise, explica Rands, professor de economia da Universidade Federal de Pernambuco. Para começar, o Nordeste exporta pouco. O que os nordestinos chamam de “exportação” é a venda de seus produtos para Sul e Sudeste. Como o consumo das famílias no Brasil foi o salvador geral da pátria, as empresas “exportadoras” se saíram bem. Em segundo lugar, a crise gerou incertezas e perturbou o humor das indústrias, sobretudo as do setor de bens de capital. Mas como estas se concentram no eixo São Paulo-Rio-Minas, o impacto no Nordeste foi menor.


Essas duas realidades não afetaram a confiança do nordestino, o terceiro fator em favor da região. O consumidor continuou comprando e se endividando para comprar mais. Confiaram na promessa de marolinha do presidente conterrâneo, Luiz Inácio Lula da Silva. “O efeito político foi grande. Os índices de aprovação de Lula caíram menos porque o Nordeste sofreu menos com a crise”, interpreta Rands.


O PIB nordestino contribui com uma fatia ainda inferior a 15% do PIB nacional. Porém crescer mais que o Brasil em meio à crise diz respeito a um terço da população brasileira que vive no Nordeste. Desde 2003, início do governo Lula, a região tem registrado PIBs superiores ao do País. A exceção foi 2007, o ano de crescimento recorde em que houve problemas localizados em algumas indústrias nordestinas. Mas a diferença foi pequena: 5,7% do Brasil ante 5,1% do Nordeste.


“Em setembro do ano passado, sem ser profeta, eu já dava declarações de que a crise mundial traria desdobramentos positivos para o Nordeste”, lembra Cid Gomes (PSB), governador do Ceará. A primeira seria consequência da desvalorização do dólar frente ao real. O Brasil se tornou barato para os estrangeiros e o turismo saiu ganhando. Bahia e Ceará vêm se alternando nas primeiras posições de maiores vendedores de pacotes turísticos do País. Os governadores do Nordeste aproveitaram também o momento para investir em obras públicas e desoneraram setores industriais, sobretudo os de itens de consumo popular e os que faziam concorrência com outros Estados.


O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), afirma que nem tudo foram flores e tem segurado a economia “na unha”. O Estado é o mais industrializado da região e setores como o de petroquímico, um dos carro-chefe da produção local, foram nocauteados pela crise. O fôlego foi possível, explica Wagner, pelos recursos de programas sociais estaduais e federais que não cessaram. “O nosso consumidor não está com a síndrome de guerra. Se ele vê que dá para consumir, vai para cima”, diz. Como houve mais impacto negativo da crise na Bahia, o governador baiano crê que a retomada neste segundo semestre será proporcionalmente maior. A indústria de celulose já retomou o volume de produção pré-crise, mas o faturamento continua inferior por causa do dólar barato e do preço mundial da mercadoria.


DIA DE FEIRA


Quem visita o Nordeste para além das capitais litorâneas percebe que o avanço das economias vem ocorrendo também no interior. O comércio dos pequenos municípios adquiriu outro status. Com dinheiro no bolso, o consumidor passou a atrair grandes empresas. Na década de 90 elas podiam se dar ao luxo de concentrar as atividades no Sul e Sudeste, mas agora elas correm atrás dos nordestinos. Em 2003, pouco mais da metade das famílias pobres possuía televisão a cores, hoje 88,7% delas têm. Telefone celular: saltou de 10,5% para 55%. Indústrias alimentícias que antes enviavam as mercadorias para as regiões Norte e Nordeste vêm montando bases locais e acabam comprando matéria-prima da própria região.


O governador Cid Gomes prefere associar uma imagem que retrata bem a atual realidade nordestina. Na terça-feira, despachando de Pedra Branca em seu governo itinerante, ele notou intensa atividade no comércio da cidade de 40 mil habitantes. Imaginou que era a feira, uma rotina secular dos municípios interioranos, quando a população se reúne numa praça para ofertar feijão de corda, carne de sol e macaxeira e levar para casa roupas, panelas e a comida que falta. “A feira de Pedra Branca era de sábado, mas me disseram que agora todo dia é dia de feira”, comemora.

A (ex-)Esquerda Corporation abandona o MST

Do Correio da Cidadania

Por Raymundo A Filho

Critico que sou, há muito, da direção do MST, com a sua política de blindagem e "cuidados" nas críticas ao governo Lulla, venho aqui apontar os resultados desta política adesista e institucionalista que, a meu ver, leva o MST à uma sinuca de bico.

Ontem, em todos os telejornais, e hoje, na maioria dos jornais, há o desfile macabro de notórios ex-esquerdistas, acionistas da (ex-)Esquerda Corporation, assumindo discurso da "punição criminal necessária" aos sem terra que chamaram, mais uma vez, a atenção do mundo para as falcatruas rurais e a paralisação da Reforma Agrária, ao que parece agora dependente de mais um interposto, que é a discussão sobre o aumento de índices de produtividade da terra. Como se tudo só dependesse disso, o que é uma mentira.

Estavam lá notórios "esquerdistas" e ocupantes de cargos públicos de um governo, o de Lulla, que se diz popular e não criminalizador dos movimentos sociais, a fazer média com o conservadorismo, a criminalizar o MST.

Nenhum deles mencionou a ilegalidade no uso de terras públicas para a perniciosa monocultura de laranjas, à base de toneladas de fertilizantes e venenos, sendo a ponta de lança dos métodos trogloditas de fazer agricultura, só boa para as corporações oligopolistas.

O agronegócio já desmatou o imensurável, e NUNCA vi nenhum destes da (ex)Esquerda Corporation pedirem cadeia para nenhum empresário rural com a veemência e convicção que agora fizeram com os integrantes do MST.

A agricultura familiar está enfiada até os ossos na compra de insumos industriais contaminantes, para onde vão 70% dos recursos do PRONAF (fertilizantes, venenos, carrapaticidas e vermicidas, medicamentos antibióticos e outros altamente persistentes no ambiente), afastando-a da agricultura ecológica (menos de 10% da agricultura familiar é ecológica), e acentuando a transferência de recursos do campo para os complexos industriais urbanos e internacionais. E ninguém aponta este crime.

Assim, mesmo considerando ter sido uma decisão muito arriscada, mas não equivocada do ponto de vista da denúncia feita, esta ação do MST de derrubar uns poucos pés de laranjas (a equação energética e ambiental daquele laranjal é completamente desfarovável para a coletividade), muito mais importante é colaborarmos para o esclarecimento das reais questões, muito bem expostas e denunciadas pelo MST.

Neste momento não cabem vacilações. E não podemos colaborar com o discurso já audível no próprio governo de "que isso vai atrasar ainda mais o processo".

Ora! O MST ficou seis anos amordaçado e manietado pela sua direção e nada obtiveram. Agora, fazem uma ação mais radical (e não contra o governo) e são ameaçados com mais "demora do processo".

Abram o olho: denunciar este governo como cúmplice da burguesia, não alinhando-se com qualquer crítica desta (falsas questões, na verdade), faz parte da reconstrução de uma oposição popular, para a luta anticapitalista, em grande atraso aqui entre nós.

Enquanto mantiverem o discurso da blindagem "apesar de tudo", nada conseguirão e serão sempre, ainda por cima, identificados como aliados e protegidos do governo, isentando este de falta de culpa na paralisação da Reforma Agrária.

A (ex-)Esquerda Corporation faria bonito se estivesse como figurante em famoso baile, de famosíssimo filme de Roman Polansky, A Dança dos Vampiros.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Quase metade dos jovens do Brasil está na pobreza


Da Reuters


Por Rodrigo Viga Gaier



RIO DE JANEIRO (Reuters) - Quase metade das crianças e dos jovens de até 17 anos estava em situação de pobreza ou extrema pobreza no ano passado, de acordo com estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira.
Segundo o levantamento, intitulado Síntese dos Indicadores Sociais, 44,7 por cento das crianças e adolescentes do país estavam na condição de pobreza ou pobreza extrema, o equivalente a cerca de 11 milhões de pessoas.
Pelos critérios da pesquisa, um pobre tem um rendimento domiciliar per capita de até meio salário mínimo por mês ao passo que o extremo pobre tem uma renda de até um quarto do mínimo. O salário mínimo em 2008 era de 415 reais.
O levantamento apontou que 18,5 por cento dos jovens de até 17 anos residiam em uma casa com renda per capita de até um quarto do salário mínimo e 26,2 por cento tinham uma renda por pessoa de até meio salário mínimo ao mês.
"Quando se estuda pobreza no Brasil temos que levar em consideração vários aspectos. A raiz do problema está nas famílias pobres. A criança precisa entrar no mercado de trabalho de forma precoce para ajudar e ela acaba por reproduzir no futuro o padrão de pobreza da sua família. O trabalho infantil e o baixo nível de escolaridade explicam o problema,” disse o presidente do IBGE, Eduardo Nunes “É importante dar continuidade nas transferências de renda”, declarou
O IBGE detectou, no entanto, uma redução da pobreza na população de até 17 anos.
"A redução paulatina do nível de pobreza na segunda metade da década pode ser constatada também nas famílias com crianças e adolescentes", afirmou o IBGE. "Em 1998, 27,3 por cento das pessoas de até 17 anos viviam na condição de extrema pobreza e, em 2008, esse percentual diminuiu para 18,5 por cento."
A situação nas regiões menos desenvolvidas do país é mais grave. No Nordeste, 66,7 por cento das pessoas com até 17 anos vivem na pobreza ou na extrema pobreza ao passo que no Sudeste o contigente era de 31,5 por cento.



Dia da criança: cidadã ou consumista?


Do site Amai-vos


Por Frei Betto


Na próxima segunda, 12 de outubro, comemora-se o Dia da Criança. Momento de refletir o que temos feito com as nossas. Estamos formando futuros cidadãos ou consumistas?
Pesquisas indicam que as crianças brasileiras costumam passar 4 horas por dia na escola e o dobro de olho na TV. Impressiona o número de peças publicitárias destinadas a crianças ou que as utilizam como isca de consumo.
A pesquisadora Susan Linn, da Universidade de Harvard, constatou que o excesso de publicidade causa nas crianças distúrbios comportamentais e nutricionais. De obesidade precoce, pela ingestão de alimentos ricos em açúcares ou gorduras saturadas, como refrigerantes e frituras, à anorexia provocada pela obsessão da magreza digna de passarela.
Sexualidade precoce e desajustes familiares são outros efeitos da excessiva exposição à publicidade. São menos felizes, constatou a pesquisadora, as crianças influenciadas pelas ideias de que sexo independe de amor, a estética do corpo predomina sobre os sentimentos, a felicidade reside na posse de bens materiais.
Impregnada desses falsos valores, tão divulgados como absolutos, a criança exacerba suas expectativas. Ora, sabemos todos que o tombo é proporcional ao tamanho da queda. Se uma criança associa a sua felicidade a propostas consumistas, tanto maior será sua frustração e infelicidade, seja pela impossibilidade de saciar o desejo, seja pela incapacidade de cultivar sua autoestima a partir de valores enraizados em sua subjetividade. Torna-se, assim, uma criança rebelde, geniosa, impositiva, indisciplinada em casa e na escola.
A praga do consumismo é, hoje, também uma questão ambiental e política. Montanhas de plástico se acumulam nos oceanos e a incontinência do desejo dificulta cada vez mais uma sociedade sustentável, na qual os bens da Terra e os frutos do trabalho humano sejam partilhados entre todos.
Um dos fatores de deformação infantil é a desagregação do núcleo familiar. No Dia dos Pais um garoto suplicou ao pai, em bilhete, que desse a ele tanta atenção quanto dedica à TV... Um filho de pais separados pediu para morar com os avós após presenciar a discussão dos pais de que, um e outro, queriam se ver livre dele no fim de semana.
Causa-me horror o orgulho de pais que exibem seus filhos em concursos de beleza. Uma criança instigada a, precocemente, prestar demasiada atenção ao próprio corpo, tende à esquizofrenia de ser biologicamente infantil e psicologicamente “adulta”. Encurta-se, assim, seu tempo de infância. A fantasia, própria da idade, é transferida à TV e ao apelo de consumo. Não surpreende, pois, que, na adolescência, o vazio do coração busque compensação na ingestão de drogas.
Com frequência pais me indagam o que fazer frente à indiferença religiosa dos filhos adolescentes. Respondo que a questão é colocada com dez anos de atraso. Se os filhos fossem crianças, eu saberia o que dizer: ore com eles antes das refeições; leiam em família textos bíblicos; evitem fazer das datas litúrgicas meros períodos de miniférias, como a Semana Santa e o Natal, e celebrem com eles o significado religioso dessas efemérides; incutam neles a certeza de que são profundamente amados por Deus e que Deus vive neles.
Crianças são seres miméticos por natureza. A melhor maneira de interessar um bebê em música é colocá-lo ao lado de outro que já tenha familiaridade com um instrumento musical. Ora, o que esperar de uma criança que presencia os pais humilharem a faxineira, tratarem garçons com prepotência, xingarem motoristas no trânsito, jogarem lixo na rua, passarem a noite se deliciando com futilidades televisivas?
Criança precisa de afeto, de sentir-se valorizada e acolhida, mas também de disciplina e, ao romper o código de conduta, de punição sem violência física ou oral. Só assim aprenderá a conhecer os próprios limites e respeitar os direitos do outro. Só assim evitará tornar-se um adulto invejoso, competitivo, rancoroso, pois saberá não confundir diferença com divergência e não fará da dessemelhança fator de preconceito e discriminação.
É preciso conversar com elas, através da linguagem adequada, sobre situações-limites da vida: dor, perda, ruptura afetiva, fracasso, morte. Incutir nelas o respeito aos mais pobres e a indignação frente à injustiça que causa pobreza; senso de responsabilidade social (há dias vi alunos de uma escola varrendo a rua), de preservação ambiental (como a economia de água), de protagonismo político (saber acatar decisão da maioria e inteirar-se do que significam os períodos eleitorais).
Se você adora passear com seu filho em shoppings, não estranhe se, no futuro, ele se tornar um adulto ressentido por não possuir tantos bens finitos. Se você, porém, incutir nele apreço aos bens infinitos – generosidade, solidariedade, espiritualidade – ele se tornará uma pessoa feliz e, quando adulto, será seu companheiro de amizade, e não o eterno filho-problema a lhe causar tanta aflição.
Saber educar é saber amar.

Dívida acumulada nos cartões é bolha prestes a estourar


Do blog do José Paulo Kupfer


A nota do Banco Central que anuncia a conclusão da “análise sobre a indústria de cartões de pagamentos no Brasil”, é uma mensagem cifrada a respeito de um assunto explosivo. No mercado de cartões, formou-se, ao longo dos últimos anos, uma imensa bolha que pode estourar com grande estrondo e forte impacto na atividade bancária. A situação chegou a um ponto crítico.
Os números mais recentes, de julho, dão a dimensão exata do problemaço. As dívidas acumuladas em cartões somaram R$ 26,5 bilhões e quase 30% dos financiamentos enfrentam atrasos no pagamento superiores a 90 dias. Se não estancar a sangria, vai dar um rolo de dimensões difíceis de prever.
Dos fatores que explicam o fenômeno três se destacam. O primeiro é a facilidade com que é possível, no Brasil, obter financiamentos com cartões – a gente recebe cartões mesmo quando não solicita. Outro é o absurdo nível dos juros cobrados. O último é a negligência dos organismos de regulação e supervisão da atividade.
Pesquisa da Anefac, a associação que reúne os executivos de finanças, aponta uma taxa média de juros, nos cartões de crédito, ao longo de todo o ano de 2009, de 237,9% ao ano. Esse percentual expressa uma taxa mensal de 7,5% ao mês. Mas há casos de cartões que cobram 10% ao mês em seu crédito rotativo ou mais de 300% anuais. E há casos ainda mais estapafúrdios de taxas de 15% ou 18% ao mês (mais de 500% e mais de 700% ao ano).
Vamos simplificar as coisas. Não há possibilidade de alguma coisa funcionar decentemente, em nenhum mercado financeiro, com taxas dessa magnitude. É, literalmente, um crime contra a economia popular deixar que isso ocorra.
Não é nem preciso entrar em detalhes. Numa economia em que a inflação roda a 4,5% ao ano e a taxa básica de juros a menos de 9% ao ano, o fato de uma modalidade de empréstimo cobrar o dobro da inflação anual e um pouco do que os juros anuais a cada mês, é mais do que um indicativo de falhas escandalosas na supervisão e na regulação do mercado.
Se não bastasse a óbvia constatação de que o mercado de cartões não obedece a um mínimo de regras, impondo seu poder de quase monopólio (na verdade, é, na pratica, um duopólio) a consumidores e comerciantes, nas barbas do governo, a burocracia oficial que deveria cuidar do setor ainda se desentende sobre as medidas corretivas a adotar.
A nota do BC é uma mensagem enrustida desse desentendimento. A autoridade monetária informa que os estudos, teoricamente conduzidos em conjunto com a Secretaria de Acompanhamento Econômico, do ministério da Fazenda, e a de Secretaria de Direito Econômico, do ministério da Justiça, foram concluídos e dá uma visão para lá de genérica das medidas de correção recomendadas.
Num ambiente de normalidade, seria estranho informar, por nota oficial, que certos estudos foram concluídos. Também estranho, por óbvio, seria complementar a informação avisando que a decisão caberia aos órgãos competentes – no caso, BC, Fazenda e Justiça. Igualmente estranho, finalmente, é o anúncio genérico de recomendações genéricas.
Consta que o BC, incorporando propostas de associações dos cartões de crédito, propunha a adoção de medidas gerais, enquanto os ministérios queriam normas mais rígidas e específicas. As propostas do BC, segundo os jornalistas Sheila D´Amorim e Valdo Cruz, da Folha de S. Paulo, em Brasília, foram consideras “frouxas” por técnicos envolvidos na discussão. Esses técnicos consideram que as recomendações do BC se limitariam a orientar uma autorregulamentação.
Enquanto eles não se entendem, a bolha das dívidas aumenta. E o risco de um estouro é cada vez maior.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Texto de Voltaire, filósofo francês.


"Prece pela tolerância", escrita há quase 250 anos, mas que
permanece absolutamente atual.


Não é mais aos homens que me dirijo. É à você, Deus de todos os seres,
de todos os mundos e de todos os tempos: Que os erros agarrados à nossa
natureza não sejam motivo de nossas calamidades.


Você não nos deu coração para nos odiarmos nem mãos para nos enforcarmos.
Faça com que nos ajudemos mutuamente a suportar o fardo de
uma vida penosa e passageira.


Que as pequenas diferenças entre as vestimentas que cobrem nossos corpos,
entre nossos costumes ridículos, entre nossas leis imperfeitas e
nossas opiniões insensatas não sejam sinais de ódio e perseguição.


Que aqueles que acedem velas em pleno dia para te celebrar,
suportem os que se contentam com a luz do sol.


Que os que cobrem suas roupas com um manto branco
para dizer que é preciso te amar, não detestem os que dizem
a mesma coisa sob um manto negro.


Que aqueles que dominam uma pequena parte desse mundo,
e que possuem algum dinheiro, desfrutem sem orgulho do que
chamam poder e riqueza e que os outros não os vejam com inveja,
mesmo porque você sabe que não há nessas vaidades nem o que invejar
nem do que se orgulhar.


Que eles tenham horror à tirania exercida sobre as almas,
como também execrem os que exploram a força do trabalho.
Se os flagelos da guerra são inevitáveis, não nos violentemos em nome da paz.


Que possam todos os homens se lembrar que eles são irmãos!

Qual será o futuro de nossos netos?


Por Leonardo Boff


Olhando meus netos brincando no jardim, saltitando como cabritos, rolando no chão e subindo e descendo árvores surgem-me dois sentimentos. Um de inveja: já não posso fazer nada disso com as quatro próteses que tenho nos membros inferiores. E outra de preocupação: que mundo irão enfrentar dentro de alguns anos?
Os prognósticos dos especialistas mais sérios são ameaçadores. Há uma data fatídica ou mágica sempre aventada por eles: o ano 2025. Quase todos afirmam: se nada fizermos ou não fizermos o suficiente já agora, a catástrofe ecologicohumanitária será inevitável.
A recuperação lenta que se nota em muitos países da atual crise economicofinanceira, não significa ainda uma saída dela. Apenas que a queda livre se encerrou. Volta o desenvolvimento/crescimento mas com outra crise: a do desemprego. Milhões estão sendo condenados a serem desempregados estruturais. Quer dizer, não irão mais ingressar no mercado de trabalho, sequer ficarão como exército de reserva do processo produtivo. Serão simplesmente dispensáveis. Que significa ficar desempregado permanentemente senão uma lenta morte e uma desintegração profunda do sentido da vida? Acresce ainda que estão prognosticados até àquela data fatídica cerca de 150 a 200 milhões de refugiados climáticos.
O relatório “State of the Future 2009”(O Globo de 14.07/09) feito por 2.700 cientistas diz, enfaticamente, que devido principalmente ao aquecimento global, por volta de 2025, cerca de três bilhões de pessoas não terão acesso à água potável. Que significa dizer isso? Simplesmente que esses bilhões, se não forem socorridos, poderão morrer por sede, desidratação e outras doenças. O relatório diz mais: metade da população mundial estará envolvida em convulsões sociais em razão da crise sócio-ecológica global.
Paul Krugman, prêmio Nobel de economia de 2008, sempre ponderado e crítico quanto à insuficiência das medidas para enfrentar a crise socioambiental, escreveu recentemente: “Se o consenso dos especialistas econômicos é péssimo, o consenso dos especialistas das mudanças climáticas é terrível” (JB 14/07/09). E comenta: “Se agirmos da mesma forma como agimos, não o pior cenário mas o mais provável, será a elevação de temperaturas que vão destruir a vida como a conhecemos.”
Se provavelmente assim será, minha preocupação pelos netos se transforma em angústia: que mundo herdarão de nós? Que decisões serão obrigados a tomar que poderão significar para eles vida ou morte?
Comportamo-nos como se a Terra fosse só nossa e de nossa geração. Esquecemos que ela pertence principalmente aos que ainda virão, nossos filhos e netos. Eles têm direito de poder entrar neste mundo, minimamente habitável e com as condições necessárias para uma vida decente que não só lhes permita sobreviver mas florescer e irradiar.
Os cenários referidos acima nos obrigam a soluções que mudam o quadro global de nossa vida na Terra. Não dá para continuar ganhando dinheiro com a venda do direito de poluir (créditos de carbono) e com a economia verde. Se o gênio do capitalismo é saber adaptar-se a cada circunstância, desde que se preservem as leis do mercado e as chances de ganho, agora devemos reconhecer que esta estratégia não é mais possível. Ela precipitaria a catástrofe previsível.
Para termos futuro devemos partir de outras premissas: ao invés da exploração, a sinergia homem-natureza, pois Terra e humanidade formam um único todo; no lugar da concorrência, a cooperação, base da construção da sociedade com rosto humano.
Dão-me alguma esperança os teóricos da complexidade, da incerteza e do caos (Prigogine, Heisenberg, Morin) que dizem que em toda a realidade funciona a seguinte dinâmica: a desordem leva à auto-organização e à uma nova ordem e assim à continuidade da vida num nível mais alto.” Porque amamos as estrelas não temos medos da escuridão.

OBAMA É NOBEL DA PAZ

Do Democracia e Política

OBAMA É NOBEL DA PAZ, APESAR DE PERSISTIREM OS ATAQUES E INVASÕES MILITARES AO IRAQUE E AFEGANISTÃO E A VERGONHA DE GUANTÁNAMO

"O Prêmio Nobel da Paz foi atribuído nesta sexta-feira (9) ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, "pelos seus extraordinários esforços para reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos", anunciou o Comitê Nobel norueguês. Foram esquecidas pelo comitê as suas medidas para aprofundar a ocupação do Afeganistão e permanência no Iraque.

"O comitê deu muita importância à visão e aos esforços de Obama no sentido de um mundo sem armas nucleares", declarou o presidente do Comitê Nobel norueguês, Thorbjoern Jagland.

Como presidente, Barack Obama "criou um novo clima na política internacional", lê-se na citação da atribuição do prêmio.Com ele, acrescenta, "a diplomacia multilateral voltou a ganhar uma posição central, com ênfase no papel que as Nações Unidas e outras instituições internacionais podem desempenhar".

Além disso, devido à sua influência, segundo o Comitê, "o diálogo e as negociações são preferidas como instrumentos para a resolução mesmo dos mais difíceis conflitos internacionais", sendo que "a visão de um mundo livre de armas nucleares estimulou poderosamente e as negociações de controlo de armas".

"Só muito raramente uma pessoa capturou como Obama a atenção do mundo e deu esperança ao seu povo num futuro melhor", lê-se ainda na citação.O Comitê norueguês, na sua conclusão, destaca que "se esforça há 108 anos por estimular precisamente essa política internacional e essas atitudes das quais Obama é o principal porta-voz no mundo".

O prêmio será entregue em Oslo em 10 de Dezembro, data do aniversário da morte do seu fundador, o industrial e filantropo sueco Alfred Nobel, e consiste numa medalha, um diploma e um cheque de 10 milhões de coroas (cerca de 980 mil euros).

Obama entra para a história do prêmio como terceiro presidente americano a receber a distinção durante seu mandato.De acordo com o jornal The New York Times, o nome de Obama não tinha figurado entre os possíveis ganhadores até minutos antes do anúncio.

O presidente americano recebe o prêmio meses depois de ser empossado no cargo, em um momento em que os Estados Unidos ocupam militarmente Iraque e Afeganistão.

Antes de Obama, receberam o Nobel da Paz como presidentes dos Estados Unidos Theodore Roosevelt en 1906, e Woodrow Wilson en 1919.

Com o presidente Jimmy Carter, presenteado quase duas décadas depois de terminar sua administração, são quatro presidentes americanos que ostentam o prêmio norueguês. Em sua maioria são do Partido Democrata."

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O mercado que escraviza a cultura


Do site Uma Coisa e Outra


Por Celso Japiassu


É da natureza dos jovens querer mudar o mundo, embora o mundo de hoje esteja tão povoado de jovens conservadores. O desejo de explicar a própria existência, a angústia diante da morte e a incapacidade de entender o infinito fez o homem criar as religiões e a elas entregar o seu destino.
O testemunho das injustiças do mundo e o desejo de mudar radicalmente o que lhe parecia imperfeito levaram-no a construir as ideologias e nelas depositar o sonho de transformar as sociedades humanas. A idéia da revolução social, que teve seu impulso definitivo com a Revolução Francesa, conheceu altos e baixos e sofreu versões à direita e à esquerda até ancorar na revolução nazista, de um lado, e na revolução bolchevista, do outro. Ambos projetos fracassados, um pelo delírio expansionista ditatorial hitlerista que desaguou na Segunda Guerra Mundial e o outro implodiu por adotar o mesmo sistema autoritário czarista contra o qual havia lutado e que pretendia substituir pela experiência socialista.
Transformar a sociedade pela ação política foi a idéia que prevaleceu entre os jóvens que nasceram e cresceram no século XX, influenciados pelos filósofos que no século anterior interpretaram a História e a Economia. E também pelo papel político desempenhado pela Igreja Católica depois das conclusões do seu Concílio Vaticano II.
Foram, portanto, teses contraditórias, como Materialismo e Espiritualismo que, apesar de suas grandes diferenças, mobilizaram tantos contingentes humanos, principalmente a juventude, para o engajamento nas idéias que justificavam a necessidade de mudar o mundo. Acreditava-se na inevitabilidade histórica dessa mudança.
A derrocada da União Soviética e a falência do seu modelo socialista abalaram a correlação de forças na política internacional. O triunfo do capitalismo fez renascer o individualismo exacerbado e os jóvens revolucionários dos anos 60 e 70 do século passado transformam-se cada vez mais em velhos conservadores e reacionários. Houve também o chamado Consenso de Washington, construido em 1989 com o receituario neo-liberal posto em prática inicialmente no Chile de Pinochet pelos Chicago Boys e, posteriormente, por Margareth Thatcher, na Inglaterra, de onde se espalhou pelo mundo com características ideológicas que justificariam o reinado absoluto do mercado.
O mercado, esta entidade virtual que passou a ser a única referência aceitável das transações capitalistas. O desenvolvimento da tecnologia e das comunicações, que permitiu a mundialização das atividades econômicas, ampliou universalmente o conceito de mercado e de consumo. Os produtos são mais valorizados quanto mais massificados. Prevalecem aqueles que são capazes de inspirar maior desejo de posse no consumidor.
A indústria cultural, como não poderia deixar de ser, reflete essas mudanças na discussão das idéias, a ponto de a televisão comercial ter passado a representar o papel de mais importante veículo das culturas nacionais.
A transformação da cultura em mercadoria esmaga as manifestações populares em benefício do mercado, que paga por aquilo que é bom dentro dos seus próprios conceitos de valor mercantil. Desprestigiado e desmotivado, o artista popular desaparece.
A principal característica de um produto dirigido pelo mercado - sua capacidade de massificar-se e adquirir valor econômico – inibe a criatividade e o experimentalismo das manifestações culturais autênticas. E permite que surjam as falsas vanguardas que invadiram, por exemplo, o universo das artes plásticas.